Elas no campo e do tatame: esporte revela talentos femininos no sertão

Em regiões onde a escassez de oportunidades empurra crianças e adolescentes para a criminalidade, o alcoolismo e o uso de drogas, o Instituto Água Viva (IAV) transformou o esporte em barreira de proteção. O Sertão Esportivo forma 1.500 crianças e adolescentes na Bahia e no Piauí por meio do futebol e das artes marciais, e o que começou como ocupação do tempo ocioso virou, na prática, um sistema de metas, horários e regras que disputam espaço com o que a rua oferece.
"O esporte não é lazer aqui, é estrutura. Enquanto o menino ou a menina está no treino, ele
está longe do que a gente sabe que existe do lado de fora e, mais que isso, está aprendendo a construir uma rotina que sustenta o resto da vida", afirma Felipe Abreu, gestor do pilar de esportes do Instituto Água Viva.
O movimento mais visível do último período veio delas. A procura pelas turmas femininas cresceu 20% e hoje as meninas estão entre os 1.500 atendidos, presença que se firmou tanto nas equipes de futebol quanto nos tatames de artes marciais. Do grupo, já saem nomes que despontam em competições regionais.
Para o IAV, o avanço tem um peso que vai além da quadra. Em territórios onde a menina costuma ser a primeira a sair da escola para assumir a casa ou os irmãos mais novos, ocupar o campo e o tatame é uma afirmação de lugar. "Quando uma menina entra no treino, ela não está só praticando um esporte. Ela está dizendo que tem direito àquele espaço, e isso muda a forma como ela se enxerga e como a comunidade a enxerga", completa Abreu.

Disciplina que se aprende no corpo
No tatame, a primeira lição não é o golpe, é o controle. No campo, antes da jogada, vem o entendimento do coletivo. Paciência, autocontrole, respeito à hierarquia e ao próximo são competências que migram do treino para a sala de aula, para a casa e para a vida. "O esporte ensina algo que nenhuma palestra ensina, o corpo aprende a esperar, a respeitar a vez do outro, a lidar com a derrota sem desistir", resume o gestor.
Atualmente, 450 crianças e adolescentes, entre meninos e meninas, estão nas turmas de artes marciais e os demais, distribuídos nas equipes de futebol. O projeto também investe na aproximação entre pais e filhos dentro das bases, porque o IAV entende que nenhuma transformação esportiva se sustenta sem reconstruir, junto, a base familiar.
Parcerias que sustentam a continuidade
O Sertão Esportivo teve início em outubro de 2025 e segue até outubro de 2027, com o apoio de Grupo Fortlev, BTG Pactual, Perfilados Rio Doce, Timenow, Extrafruti, Brasil Fibras, Atacado União, Enepol, Euroamerican e RDG Aços do Brasil, parcerias que garantem, na prática, a permanência do projeto no semiárido nordestino.
Informações à imprensa
Mariane Gagulich




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